Ele está cheio de arroz para dar

Chicão Ruzene é o que se pode chamar de um sujeito visionário. Filho e neto de rizicultores, plantou arroz branco por 23 anos, como fazia (e ainda faz) boa parte dos agricultores do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo.

Chicão Ruzene parou de plantar arroz branco para se dedicar aos arrozes especiais em Pindamonhangaba

Sabia que era só mais uma peça na engrenagem do mercado de commodity do arroz. E isso era tudo o que ele não queria. Estava farto de plantar arroz agulhinha e vender como item da cesta básica. Foi quando conheceu Cândido Ricardo Bastos, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que à época tinha um projeto de desenvolvimento de arrozes especiais. Novidadeiro, Ruzene aceitou o desafio e começou a plantar arroz preto na loucura, sem ter para quem vender.

"Agendei horário com o diretor comercial de uma empresa grande e cheguei com uma sacolinha do arroz preto. Ele gostou da novidade e, pela conversa, entendi que eu poderia plantar, porque ele venderia na marca dele", conta Chicão em entrevista ao Paladar. "Aí, parei de plantar o agulhinha para ter só o preto. Seis meses depois, voltei lá com o arroz colhido. E o diretor me disse: ‘Mas Chicão, precisa fazer pesquisa de mercado!’. E eu: ‘Que pesquisa de mercado, cara? Já plantei essa droga de arroz. Agora você vai ter que vender na sua marca'."

Chicão se viu com um elefante preto - de 80 toneladas - na mão. Conversou com a mulher, Rosinha (hoje diretora comercial da empresa), e decidiu criar sua marca, a Ruzene. "Comprei a embalagem mais barata e fiz o rótulo."

As coisas começaram a mudar quando, numa Fispal (feira voltada à indústria de alimentos e bebidas), um visitante pegou uma amostra e levou para Alex Atala. "Nem sabia quem era o Alex. Passaram alguns dias e ele me mandou um e-mail, dizendo para eu procurá-lo. Aí foi que eu coloquei no Google e descobri quem era ele", conta Chicão. "Disse para o Alex: 'Estou ferrado, cara. Produzi e não tenho para quem vender. Se você não me ajudar, vou morrer lá."

O arroz preto não só entrou no cardápio do D.O.M. e nas gôndolas de mercados sofisticados, como é envazado atualmente para oito empresas, entre elas a Camil, a La Pastina e a La Rioja.

Mas Chicão não parou no arroz preto. Foi para o vermelho, o cateto, o basmati e o arbóreo (veja abaixo). Também não parou no campo. Tem um pequeno laboratório de desenvolvimento de arrozes e uma lavoura de testes com mais de 100 variedades de arrozes especiais. "Não quer dizer que essas 100 vão vingar. Mas se sair uma boa entre as 100 já é uma grande coisa." Tampouco parou na própria lavoura. Fundou a "minicooperativa do Chicão", com dez pequenos rizicultores de Pindamonhangaba, onde fica sua lavoura - arrendada!

Há quatro safras, fornece a semente, colhe (a produção de quem não tem equipamento), beneficia em uma pequena fábrica que montou e dá garantia de compra. "Eram produtores de arroz tradicional. Paguei um preço razoável, melhor para eles do que para mim, para toparem trocar. Agora eles têm rendimento maior do que com o arroz tradicional."

A última novidade, o miniarroz, ainda "é coisa do dr. Cândido", que morreu em 2011. "É um catetinho que saiu no meio de um catetão. Foi um cruzamento natural, espontâneo. O dr. Cândido achou uma planta que se destacou e foi multiplicando. Ela sempre ia dando grãos pequenos", conta. "Foi ele que me mostrou o valor que esses produtos especiais tinham para a gastronomia."


4 coisas que você não sabia sobre arroz...

De 7 em 7 anos
Qualquer nova variedade de arroz precisa ser replantada por sete anos, numa lavoura de teste, antes de ser lançada comercialmente. Isto porque o cruzamento dos arrozes só se "estabiliza" e para de se degenerar depois do sétimo ano. "Muitos cruzam naturalmente no campo. Se uma planta se destacar, a gente colhe a panícula, planta os grãos e vai purificando esta variedade nova", diz Chicão.

Os ciclos
O miniarroz é um arroz de ciclo longo, isto é, leva cerca de quatro meses na lavoura. Plantado em setembro, é colhido em janeiro. Mas há também arrozes de ciclo curto, como o preto (100 dias), plantado em setembro e colhido em dezembro. É por isso que a variedade de ciclo longo é plantada apenas uma vez ao ano. "Tem gente que fala: ‘Nossa, faz 30 anos que você planta arroz? Mas só plantei 30 vezes. Não é nada", diz Chicão.

Bom de boca
O maior inimigo do arroz (e do arrozal) é, contraditoriamente, um aliado do rizicultor. O ratão do banhado costuma frequentar os campos de experimento e faz estragos: deixa enormes buracos no meio da plantação. Mas a voracidade do mamífero, que volta para comer várias vezes a mesma espécie, entre 100 plantadas, é um indicativo da qualidade do grão.

Mais de cem
Cada panícula (cacho) de arroz costuma ter cerca de 100 grãos. As variedades japônicas, como o cateto, em geral são as que têm maior número de grãos por panícula (superior a 100). E as que costumam ter menos são as tradicionais, como o agulhinha, de 60 a 70 grãos

Fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos%20paladar,ele-esta-cheio-de-arroz-para-dar,4857,0.htm

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