Pinda faz sucesso com 'arroz de grife' - Jornal Vale Paraibano - 15/08/2006
Arroz preto para o Brasil
Produto é aprovado por chefs de restaurantes charmosos das capitais
Roosevelt Cássio
João Carlos de Faria
O arroz preto, por enquanto uma exclusividade do Vale do Paraíba (quem diria?) está fazendo muito sucesso entre chefes de restaurantes e nos empórios chiques de São Paulo e de outras grandes cidades como Rio de Janeiro e Brasília. Na região, além de quatro restaurantes em Pindamonhangaba e outros na charmosa Campos do Jordão, já tem supermercado em São José dos Campos com o produto na gôndola.
Roosevelt Cássio
Durante a 23º Fispal (Feira Internacional de Produtos e Serviços para Alimentação Fora do Lar), realizada em julho, em São Paulo, o arroz foi utilizado em degustações de grandes empresas como a Ajinomoto, Nestlé, Perdigão e Sadia, que o utilizaram principalmente na elaboração de risotos.
"O arroz preto permite muita criatividade na cozinha", diz José Francisco Ruzene, que acaba de colher a primeira safra da variedade IAC 600, como foi batizadao oficialmente o arroz. Ele foi o primeiro produtor a acreditar na novidade, pesquisada e desenvolvida pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e pelo Pólo Regional do Vale do Paraíba, da Agência Paulista de Tecnologia em Agronegócio da Secretaria de Agricultura do Estado, e apresentada ao mercado no ano passado.
Há dois anos, Ruzene plantou um 1,5 hectare numa área nas várzeas do rio Paraíba, em Pindamonhangaba, e, no ano passado, usou a semente para ampliar a área plantada que atingiu 30 hectares, com produção média de três toneladas por hectare. "Foi difícil acertar", revela.
Mas além das dificuldades no cultivo, Ruzene também teve que enfrentar um outro desafio: acostumado a ficar para dentro da porteira da propriedade, ele teve que se lançar no desafio de enfrentar o mercado e vender seu produto diretamente em supermercados, empórios e outras casas do ramo. "Muita gente me disse não", lembra.
A aposta, no entanto, valeu a pena, pois ele tem agora uma nova perspectiva e um diferencial para superar a concorrência. Em São Paulo, famosos empórios como a Casa Santa Luzia, nos Jardins, e o empório Santa Maria, já oferecem o arroz para seus refinados clientes e nessa semana, segue uma remessa para uma exportadora, que demonstrou interesse em comercializá-lo nos países do Mercosul.
Valor nutricional do arroz preto
Sem contar o inusitado da cor, pouco comum para a maioria dos brasileiros, o sabor e o aroma acastanhado, a versatilidade e as qualidades nutricionais são destaques do arroz preto. Quanto à sua constituição, vale citar que esse cereal tem 30% a mais de fibras, 20% a mais de proteína e 11 vezes mais compostos que combatem os radicais livres.
Consumidor aprova a novidade
Para os chefes de cozinha, além de ser bem mais barato que o arroz importado -- que chega a custar R$ 50 o quilo, contra R$ 20 do arroz preto nacional -- a novidade estimula novos usos, variando de risotos, saladas, receitas da cozinha regional ou acompanhamento de carnes exóticas. Exemplo dessa versatilidade foi uma feijoada servida para convidados no Hotel Vila Inglesa, em Campos do Jordão, na qual o feijão era branco e arroz era preto.
No restaurante Biruta, localizado no Aeroclube de Pindamonhangaba, freqüentado principalmente por executivos estrangeiros que visitam as fábricas instaladas nos arredores, o arroz preto chegou há um mês e já foi aprovado. "Quem experimenta, repete e leva pra casa", afirma o proprietário, Paulo Rogério Franco, um engenheiro agrônomo que resolveu prestigiar o produtor e ao mesmo tempo apresentar uma novidade para seus fregueses.
No cardápio do restaurante, constam três receitas com o arroz preto: dois risotos, sendo um de carneiro, e a salada, composta também com rúcula, o que lhe confere um gostinho especial.
EXÓTICO - Se em outros restaurantes as pessoas às vezes hesitam em experimentar o arroz preto pela primeira vez, no restaurante Leite ao Pé da Vaca, no km 98 da via Dutra, esse problema não existe. "Como somos especializados em carnes exóticas, quem vem comer aqui já absorve melhor o fato do arroz ser também exótico", justifica o proprietário e restauranter Paulo José Reale Vieira.
Durante a semana, o arroz é servido em pratos que constam do cardápio a la carte da casa e nos finais de semana vai para a mesa de self-service, acompanhando algumas carnes como cabrito, costela de porco e até numa "codornada", com receita exclusiva de Reale. "É um ingrediente que combina com qualquer outro, mas é preciso encontrar o tempero certo, que faça o casamento perfeito entre eles", afirma Reale.
Pesquisa no Vale leva 12 anos
O arroz preto, variedade IAC 600, faz parte de uma linha especial de arroz, própria para gastronomia diferenciada, pesquisada e desenvolvida no Pólo Regional da Apta, sob a coordenação do pesquisador Cândido Ricardo Bastos. Por enquanto, o único a produzi-lo comercialmente é Francisco Ruzene, embora haja notícias, segundo Cândido, de um produtor gaúcho que também estaria iniciando o cultivo.
"É um material bom, com grande valor agregado, mas que foi desenvolvido sob as condições do Vale do Paraíba e ainda não foi experimentado nas condições de outras regiões", diz ele. Originário da China, onde é plantado há mais de 4.000 anos, o cultivo adapta-se a qualquer sistema de plantio, seja de sequeiro ou em áreas irrigadas. "O que chamou a atenção dos produtores foi o contrato que fizemos com os Estados Unidos, que nos pagam royalties pelo uso de nossas sementes", afirma Cândido.
Além da pesquisa, que levou mais de 12 anos, Cândido e sua equipe também têm se esforçado exatamente no sentido de apresentar a novidade, não só a produtores, mas também para os possíveis compradores. A última vez que isso aconteceu foi na semana passada, quando, acompanhado de Ruzene, ele foi a Brasília para lançar o arroz em uma conhecida butique de carnes da capital federal.
Virado a paulista é a dica
Como a versatilidade é uma das qualidades mais evidentes do arroz preto, para provar que é possível combiná-lo com qualquer ingrediente, o proprietário do Leite ao Pé da Vaca, Paulo José Reale, preparou uma receita bem brasileira, o "virado à paulista", no qual o arroz branco foi substituído pelo preto, com ótima aceitações por parte dos clientes.
A receita é a convencional, cujo preparo segue os mesmos passos, mas com a troca do arroz, acompanhado de lingüiça defumada, costelinha de porco, couve no alho e ovos de codorna, sem se esquecer de um detalhe importante: um fatia de limão siciliano. "Esse não pode faltar, porque faz muita diferença no prato", afirma Reale.
http://jornal.valeparaibano.com.br/rural/arroz1.html
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